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terça-feira, 31 de maio de 2011

Terna é noite - F.Scott Fitzgerald

[Re-sublinho que os livros são apenas os pontos de partida para a minha divagação. Não procurem no livro o que vos conto dele, procurem-se.]


Existem pessoas que têm dentro delas uma tal verdade que ninguém lhes consegue passar pela vida, sem se lembrarem delas para sempre. Dick é esse herói em “Terna é a noite”. Um homem quase perfeito, que têm uma mulher quase perfeita… mas a sua vida não é, mesmo que pareça, perfeita. Esse homem adorado por todos, um dia passa o limiar dos seus próprios valores e tudo o que antes ele podia controlar, perde a orientação. Quando um homem passa por cima dos seus próprios valores, pouca coisa continua a importar. O que somos nós sem podermos confiar no que somos? Lançamento num abismo onde são sucessivas as asneiras, as desculpas, a culpas nos outros, a cegueira voluntária.

Existe uma espécie de corda suspensa onde as pessoas que se querem conhecer, caminham, o desequilíbrio está eminente, a qualquer momento o pé falha e vê-se então um lado negro, negro demais, para que as forças que nos trazem à superfície consigam esquecê-lo rapidamente. Alguns equilibram-se no momento exactamente antes do suicídio…outros acabam por cair e muitos anos passam até regressarem, se regressarem.

Mas, quando uma multidão nos continua olhar, erroneamente ou não, como antigo ou actual exemplo a seguir, aos poucos e poucos podemos convencer-nos de que é possível voltar a caminhar lá no alto. A confiança recupera-se, com ajuda. O orgulho destrói os caminhos. Se há alguém, que respeitamos e acredita incansavelmente em nós, é porque existem motivos para tal. Erra-se, mas a essência fica e um dia, com vontade e fugindo ao orgulho de querer fazer tudo sozinho, em silêncio, voltar-se-á a ser e por ser, fascina.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Morte dum Caixeiro-Viajante - Arthur Miller

Willy não suporta o falhanço que teve na vida, os seus sonhos foram destruídos pela sua focalização errada nos caminhos para o sucesso. Contou que conhecer muitas pessoas e sobretudo estar perto das mais importantes, o faria subir na vida e queria ser o primeiro nela. Quem nasce em berço de ouro não precisa à partida de certas coisas que precisam os outros. Acontece que como Willy não nasceu em berço de ouro, teria de saber fazer bem o seu trabalho para que ele resultasse e não achar que porque sabe o nome e deu um aperto de mão a um ou dois senhores importantes já eles são seus amigos. Eles não sabem sequer o nome dele e Willy no fundo sabe de todo o seu falhanço ou não teria pensado em suicídio, mas quer iludir-se e conta a todos histórias em que ele acredita, porque as contou tantas vezes que se tornaram verdadeiras. Temos em contra partida o seu irmão Ben, que decidiu partir para a floresta sozinho, sem contar com apoios de ninguém e se tornou, pelo seu carácter persistente e capacidade de arriscar, um homem rico, à custa dos diamantes da selva. Willy não quer ver a realidade e isso impede-o de a mudar, quando as coisas não acontecem ele arranja uma desculpa lógica e fora de si mesmo para essa falha. A culpa nunca é de Willy verdadeiramente, mas sim de um qualquer motivo externo, um bom exemplo disso é o de pôr a culpa no professor de matemática para o facto de o seu filho não ter chegado à universidade, filho este que não estudou e julgava poder acabar o ano porque era um bom desportista e tinha o seu vizinho Bernard para poder copiar. Aqui mostra-se que o sermos bons em uma coisa jamais faz com que automaticamente esta permita não trabalhar para outra necessária, ou se luta pelo que se quer ou não se têm. Depois temos a mulher de Willy, Linda, que sabe da falsidade das fantasias do seu marido, mas ilude-se com a ideia de que ele assim é mais feliz e não o confronta, deixando que ele viva a irrealidade e ela seja apoiada por ela mesma, o que faz a realidade dele ser mais real. Um actor sempre precisa de público para acreditar que a sua representação não é mera loucura e aqui Linda é esse público que a imaginação de Willy necessita. No fim, é Biff, o filho que se quis iludir juntamente com o pai, que traz a verdade à vida da família: “Não passo de um falhado, pai! Não passo de um falhado! Quando acabará por compreender isto? Não se trata de rancor nem nada. É a verdade, senhor!”. Biff sobreviverá ao embate porque quis encarar a verdade e lutará pela vida nova, alcançou a liberdade de se saber dono de si. Willy suicida-se porque todo o mundo desabou rápido demais e o seu espírito comodista perdeu a capacidade de iniciar uma vida nova.

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